(gr.
horme; lat. instinctus; in. Instinct; al. Instinkt; it. Istintó).
Um guia
natural da conduta
animal e humana
não é
adquirido, não é escolhido e é pouco modificável. O
instinto distingue-se da
tendência pelo cará
ter biológico, porquanto se destina à conservação do
indivíduo e da
espécie e vincula-se a uma
estrutura orgânica determinada; distingue-se do
impulso por seu cará
ter estável. Existem duas concepções fundamentais de
instinto: 1) a
metafísica, segundo a qual o
instinto é a
força que assegura a concordância entre a conduta
animal e a
ordem do
mundo; 2) a científica, segundo a qual o
instinto é um
tipo de
disposição biológica.
1) A
teoria metafísica dos
instinto foi fundada pelos estoicos. Para eles, a ordem providencial do mundo, que todos os seres estão destinados a manter, dirige a conduta animal por
meio do
instinto. Crisipo diz: "O
instinto primário do animal, por
ser este desde o
princípio dirigido pela
natureza, é de cuidar de si mesmo (Dos fins, Livro I). Diz também que o que está no mais íntimo de cada animal é a sua própria
constituição e a
consciência dessa constituição. Não é
verossímil que o animal se alheie de si ou que de algum
modo aja de tal
forma que se alheie de si ou
não cuide de si mesmo. É preciso, pois, que a própria natureza o constitua de tal modo que ele cuide de si, fugindo às
coisas nocivas e perseguindo as favoráveis. Donde se evidencia como
falso o que dizem alguns, de o
prazer ser o
instinto primário dos animais" (Dióg. L., VII, 85). Através do
instinto a
natureza leva o
animal a cuidar de si e a conservar-se, contribuindo para manter a
ordem do
todo. Cícero exprimia o
conceito estoico nos seguintes termos: "Para conservar-se, para conservar sua
vida e seu
corpo, toda
espécie animal evita por natureza tudo o que parece nocivo, deseja e trata de arranjar tudo o que é
necessário à
vida, como alimento, abrigo e
todo o resto. Também é comum a todos os seres animais o
instinto sexual com vistas à procriação e certo cuidado para com suas crias" (Tusc, I, 4, 11; De fin., III, 7, 23; De off., I, 28, 101). Algumas vezes o
direito natural foi equiparado ao
instinto assim entendido, por
ser comum
não só aos homens mas também aos animais. No séc. III, Ulpiano fazia a
distinção entre o
direito das gentes, que é só dos homens, e o
direito natural, que "a
natureza ensinou a todos os animais e por isso pertence não só ao
gênero humano, mas é comum a todos os animais que vivem na terra, no mar e no
céu. Desse direito decorrem o
casamento, a procriação e a
educação dos filhos,
coisas estas de que os animais também têm
experiência" (Dig, I, 1, 1-4). Essa concepção sempre ligada esteve ao
pressuposto metafísico da
existência de uma
ordem providencial cuja
manifestação nos animais e nos homens seria o
instinto Tomás de Aquino aduzia como
prova dessa
tese que a
providência se ocupa também das coisas individuais contingentes, o
instinto natural de que os animais são dotados e que se manifesta nas abelhas e em muitos outros animais (Contra Gent., III, 75). "Em nós semeado e infundido pelo
princípio da nossa
geração, nasce um rebento, que os gregos chamavam de
homem e que é o
apetite natural do espí
rito (...). E assim parece que é, pois
todo animal, assim que nasce, seja ele
racional ou bruto, ama-se a si mesmo e teme e evita as coisas que lhe são contrárias e que ele detesta" (Conv., IV, 22; cf. Par., 1,112-14).
Kant ainda falava do
instinto como da "voz de
Deus à qual todos os animais obedecem" e que "na
origem deve
ter guiado os primeiros tempos do
homem primitivo" (Mutmasslicher Anfang der Menschengeschichte, 1786).
Segundo essa concepção, as características do
instinto são as seguintes: 1) providencialidade, 2) infalibilidade, que deriva do
caráter interior e graças à qual o
instinto estaria sempre apto a garantir a
vida do
animal e a continuação da
espécie; 3)
imutabilidade, que deriva das duas características precedentes e que consiste na imperfectibilidade do
instinto; 4) cegueira, no
sentido de que o
instinto foge ao controle do animal e o guia sem nenhuma iniciativa direta de sua
parte. Algumas dessas características por vezes foram pressupostas e mantidas na concepção científica do
instinto Contudo, são típicas da concepção
metafísica, sendo
caracteres presumidos, deduzidos da
função atribuída ao
instinto no
cosmo, todos em
oposição aos dados da
observação. Essas características também são admitidas e defendidas habitualmente pelos filósofos que têm uma concepção providencialista do
mundo biológico, como p. ex. os espiritualistas.
Hegel também falou de um "
instinto da
razão" (Phänom. des Geistes, I, cap. V, "A observação da
natureza"; trad. it, I, pp. 222, 225, etc), atribuindo a
esse instinto as características gerais mencionadas antes.
Também é metafísica a
teoria freudiana do
instinto, especialmente do
modo como é formulada em seus últimos textos. Os instintos são "a última
causa de toda
atividade e sua natureza é conservadora: de cada
estado atingido por um
ser surge a
tendência a restabelecer esse estado quando ele foi abandonado."
Os instintos podem ser múltiplos, podem mudar de alvo e uns podem substituir os outros, mas em última
análise é
possível reconhecer dois instintos fundamentais em luta:
Eros, ou
instinto de vida, e Thanatos, ou
instinto de destruição (Abriss der Psychoanalyse, 1940, cap. II). Ver
psicanálise.
2) As teorias científicas do
instinto são de duas espécies: A) explicativas; B) descritivas.
A) Existem três teorias explicativas fundamentais, que recorrem respectivamente: a) à
ação reflexa; b) ao
intelecto; c) ao
sentimento (
simpatia).
a) A doutrina que explica o
instinto recorrendo à
ação reflexa é a mais antiga. Foi defendida por
Spencer em Princípios de
psicologia (1855): "Enquanto nas formas primitivas da
ação reflexa uma única
impressão é seguida por uma única
contração, e enquanto nas formas mais desenvolvidas da ação reflexa uma única impressão é seguida por uma combinação de contrações, nesta, que distinguimos como
instinto, uma combinação de impressões é seguida por uma combinação de contrações; e quanto mais
superior for o
instinto, tanto mais complexas serão as coordenações de direção e de execução" (Princ. of Psychology, § 194). Essa
tese foi substancialmente aceita por Darwin, que a modificou no
sentido de que o
desenvolvimento dos
instinto seria devido à
seleção natural dos atos
reflexos que constituem os instintos mais
simples. Darwin diz: "A maior
parte dos instintos mais complexos parece
ter sido adquirida mediante a seleção natural das variações de atos mais simples. Tais variações parecem resultar das mesmas causas desconhecidas que ocasionam as variações ligeiras ou as diferenças individuais nas outras partes do
corpo, que agem sobre a organização cerebral e determinam mudanças que, na nossa
ignorância, consideramos espontâneas" (Descent of
Man, 1871, I, cap. 3; trad. fr., p. 69). Essa
explicação do
instinto foi aceita
não só por darwinistas e neodarwinistas, mas também pelos que elaboraram a
teoria dos
reflexos condicionados, que consideraram o
instinto como um
reflexo condicionado
complexo (cf.
Pavlov, Os reflexos condicionados; trad. it., p. 273). O defeito dessa teoria é que as variações casuais dificilmente poderiam
explicar a
formação de
instinto tão aperfeiçoados e complexos como os dos insetos.
b) A segunda teoria explicativa tem em vista justamente a formação desses
instinto mais complexos e considera o
instinto como
inteligência degradada ou mecanizada. Essa doutrina, apresentada por Romanes (Mental Evolution in Animals, 1883), foi amplamente aceita pela
psicologia do
fim do século passado. Equivale a ver o
instinto como um
hábito que se formou e se aperfeiçoou através do
desenvolvimento de uma
espécie animal.
Wundt, especialmente, contribuiu para a difusão dessa doutrina. Diz: "Os instintos são movimentos oriundos de atos de
vontade simples ou compostos que depois, durante a
vida individual ou ao longo de "um desenvolvimento
geral, acabam mecanizados no
todo ou em parte" (Grundzüge der physiologischen Psych., 4a ed., 1893, II, pp. 510 ss.; cf. System der Phil., 2a ed., 1897, p. 590). Essa concepção algumas vezes foi utilizada pelos filósofos, com vistas a uma
metafísica espiritualista (cf, p. ex.,
Renouvier, Nouvelle monadologie, 1899, p. 83), mas contra ela existe o
fato bem verificado de que os hábitos adquiridos não são transmissíveis por herança (v. hereditariedade), constatando-se ademais que, para explicar a formação de instintos aperfeiçoados, não basta a hereditariedade da
disposição para contrair hábitos mais facilmente, que parece provada em alguns casos (Mac-Dougall).
c) A terceira teoria explicativa é a que relaciona o
instinto com os sentimentos, em
particular com a
simpatia. "
instinto é simpatia", diz
Bergson. "Nos fenômenos do
sentimento, nas simpatias e antipatias irrefletidas, sentimos em nós mesmos, de
forma bem mais vaga e ainda demasiado penetrada de inteligência, algo do que deve acontecer na
consciência de um inseto que age por
instinto. Para desenvolvê-los em profundidade, a
evolução distanciou
elementos que na
origem se interpenetravam" (Évol. créatr., 1911, 8a ed., pp. 190-91). A evolução vital distanciou a inteligência do
instinto, especializando o
instinto na
tarefa de utilizar ou mesmo de construir instrumentos organizados, e a inteligência, na de fabricar e utilizar instrumentos inorganizados (Ibid., p. 152). Segundo Bergson, a especialização do
instinto depende do fato de o
instinto ser utilização de um
instrumento determinado para um fim determinado: de um instrumento que,
além do mais, é de enorme complexidade de detalhes, embora de funcionamento simplíssimo. Os instrumentos fabricados pela inteligência, ao contrário, são muito menos perfeitos, mas podem mudar continuamente de forma e adaptar-se às novas circunstâncias. Isso explica também por que o
instinto não é
consciente ou o é minimamente: a
consciência mede a distância entre a
representação e a
ação (entre as diversas possibilidades de agir e a ação efetiva); no
instinto essa distância é mínima porque é mínima a
parte passível de
escolha (Ibid., p. 157).
Scheler, fazendo
referência a essa doutrina de
Bergson, como capaz de
explicar os instintos mais complicados (p. ex., o dos himenópteros, que paralisam, mas não matam escaravelhos ou aranhas para
pôr seus ovos, cf. Fabre, Souvenirs entomologiques, I, 3a ed., 1894, pp. 93 ss.), declara considerar
provável que "nos atos instintivos dessa
espécie, que nos põem em
presença de uma concatenação finalista,
lógica, das fases de
atividade de muitos seres, estejamos apenas diante de um exagero
anormal daquilo que é a verdadeira
fusão afetiva na
esfera da atividade humana" (Sympathie, cap. I; trad. fr., p. 50). Essa é uma aceitação
substancial do
ponto de vista de Bergson, mas corrigindo aquilo que Bergson chama de
simpatia para fusão afetiva (quanto à
diferença entre as duas, v.
simpatia). A doutrina de
Bergson foi amplamente aceita pelos filósofos, mas encontrou pouca acolhida junto aos fisiologistas e psicó
logos. Continua sendo uma das alternativas possíveis para uma
explicação do
instinto. Este, com
efeito, pode
ser relacionado com qualquer uma das duas atividades que supostamente dirigirem a conduta humana: a
inteligência e o
sentimento. A
interpretação procura vincular o
instinto à
inteligência; a
interpretação (c), ao
sentimento.
B) Na
psicologia contemporânea, a influência do
gestaltismo, em sua concepção de
abandono definitivo da
teoria dos
reflexos que tendia a resolver o
instinto em atividades elementares (as
ações reflexas), favoreceu também o abandono de qualquer teoria explicativa e o recurso a teorias descritivas, fundadas em ampla base de observações. Desse
ponto de vista, a
descrição do
instinto mais comumente adotada é a de G. E. Müller, que modificou oportunamente uma
definição de MacDougall: "O
instinto é uma
disposição psicofísica, dependente da hereditariedade, muitas vezes completamente formada logo depois do nascimento, outras vezes só depois de certo período de
desenvolvimento, que orienta o
animal a dar
atenção especial a objetos de certa
espécie ou de certo
modo, e a sentir, depois de perceber esses objetos, um
impulso para determinada
atividade, em conexão com eles" (cf. D. Katz, Mensch und Tier, 1948; trad. in., p. 1 71). Definições desse
tipo tornam inútil até mesmo o
nome instinto, que, de
fato, alguns psicó
logos tendem a substituir por outros termos, menos comprometidos pelo
uso secular (
propensão,
tendência). Às vezes, insiste-se no cará
ter totalitário da disposição instintiva, considerando-a como um "
esquema unitário" que cresce e diminui como um
todo (cf. R. B. Cattell, Personality, Nova York, 1950, p. 195). A
etologia comparada distingue no
instinto aquilo que Konrad Lorenz chamou de
mecanismo desencadeante, conjunto de condições que servem de
estímulo para a conduta instintiva, e o
ato consumador, constituído por um esquema ou
plano de movimentos, hierarquicamente organizado, que é o
comportamento instintivo propriamente
dito. Essa organização hierárquica do comportamento instintivo torna-se menos flexível à
medida que nos aproximamos da conduta em
ato. Para Tinbergen, essa flexibilidade depende das mudanças no
mundo externo (The Study of lnstinct, 1951, p. 110). Para Lorenz, o desencadeamento da conduta instintiva também pode
ser provocado por um acúmulo de
energia endógena (de
natureza predominantemente físico-química) que, tanto no
animal quanto no
homem, constitui um
instinto de agressão; este
instinto, se entregue a si mesmo, leva os homens à destruição recíproca, mas pode
ser disciplinado e canalizado para alvos que
não ponham em
risco a convivência humana. A descarga da agressão sobre objetos constituídos seria o privilégio do
homem, que pode mudar a direção de seu
impulso instintivo (Das sogenannte Böse, 1963, cap. XII).
Essa doutrina continua atribuindo ao
instinto o papel principal na
determinação do
comportamento humano e
animal, mas, por
outro lado, chegou-se a duvidar que, para
explicar esse comportamento, fosse
possível utilizar o
conceito de
instinto (cf. o simpósio sobre esse assunto no British Journal of Educacional Psychol, nov. 1941). Também se propõe uma concepção "
estatística" do L, segundo a qual ele é apenas "o fator de um
grupo inato e conativo" (burt, "The Case for Human Instincts" na Rev., cit., 3a
parte; cf. J. Flugel, Studies in Feeling and Desire, Londres, 1955). Essa
negação do
instinto diz
respeito sobretudo ao homem. Katz dissera: "No homem, os
instinto determinam apenas a
força de um impulso à
ação e seu
esquema geral. Esse esquema é
indefinido e varia segundo a
ocasião e o
indivíduo. P. ex., em todas as crianças o
instinto lúdico desenvolve-se e floresce em certo período e depois morre. Mas o
modo como as crianças realmente brincam varia muito. Além isso, é na infância que o
homem está mais
sujeito à influência dos instintos. Mais tarde, a conduta de
vida é tão controlada pelas forças externas que é difícil distinguir sua base instintiva. Ao contrário dos animais, ele
não passa a vida dentro da segurança dos instintos, mas tem a
capacidade de formá-los" (Animals and Men, cit., p. 173). Em
sociologia, às vezes se
fala em
instinto como fator dominante da
cultura ou dos seus aspectos fundamentais. Ao
instinto Pareto atribuía as
ações "
não lógicas" (Sociologia generale, 1923, § 157). Thorstein Veblen, em suas explicações sociológicas, frequentemente recorria ao
instinto:
instinto de
eficiência, ao
instinto animista, etc. (cf. The Instinct of Workmanship and the State of Business Enterprise, 1904). Hoje em dia
esse ponto de vista é frequentemente contestado. "A cultura não é instintiva sob nenhum
aspecto: ela é exclusivamente aprendida. A partir da publicação de Instinto, de
Bernard, em 1924, foi
impossível aceitar qualquer
teoria do
instinto como a
explicação do
esquema cultural
universal ou como a solução de certos problemas culturais" (G. P. Murdock, em R. Linton, The Science of
Man in the World Crisis, Nova York, 7a ed., 1952, pp. 126-27). [
Abbagnano]
O
impulso para agir de certa maneira. — Essa
ação possui (sobretudo no
animal) as três seguintes maneiras de
ser: 1.° inata (as vespas solitárias, denominadas "vespas pedreiras", fazem seu ninho de maneira sempre idêntica, ainda que os pais morram antes do
desenvolvimento da vespa-filhote; este não teria então podido "aprender" a fazer um ninho. O mesmo acontece com os pássaros migradores, que conhecem de maneira inata o caminho de sua migração — de 6.000 a 12.000 km — mesmo se estão em seu primeiro ano e os "pais" não estão lá para guiá-los); 2.°
uniforme (o
instinto não se aperfeiçoa; a
técnica da construção de barragens pelos castores, por ex., nunca progrediu no decurso do
tempo); 3.° específica (cada
espécie tem instintos particulares). Os instintos são, assim,
reflexos complexos, que são dados juntamente com a
natureza de um
indivíduo. Contudo, esses reflexos podem ser completados pela aquisição de "
reflexos condicionados", que dão uma certa flexibilidade e um certo poder de
adaptação no
instinto. No
homem, os instintos são, em
geral, dominados pelas regras sociais, mascarados pela intervenção da
inteligência (raciocínios, motivações racionais e retrospectivas de condutas instintivas), e só reaparecem quando a inteligência acha-se inibida (
sonho,
emoção, paixões, doenças mentais). (V.
tendência.) [
Larousse]
(do latim instinctus =
apetite natural) designa, em acepção muito geral, a
disposição natural dos seres vivos para operar ideologicamente. Encarado do ponto de vista da
ciência natural, o
instinto é uma disposição natural hereditária, um conjunto de disposições ordenadas e relacionadas com o
todo, que impelem o ser vivo a atender de maneira especial a certos objetos do
mundo ambiente, a entrar em contato com estes e a operar de maneira especificamente
típica e adequada à conservação da
espécie. Experiências e processos de
aprendizagem não desempenham nenhum papel fundamental, embora aliados a
reflexos e automatismos acompanhem frequentemente a
ação instintiva e "se atrelem" a ela. Esta é desencadeada por determinados objetos do
mundo animal circundante (presa, inimigo, etc.) ou principalmente por sinais dos mesmos, o
conhecimento dos quais é inteiramente
inato ao animal e completamente
independente da
experiência (
esquema inato). Os sinais podem
ser de
natureza química, acústica ou ótica. Há casos em que um esquema (p. ex., o de "companheiro sexual") está, em certo
modo, "
vazio", e só num determinado período da
vida (geralmente na adolescência) é moldado pela experiência.
Também no
homem se dão
ações instintivas. Cronologicamente, o primeiro
instinto é o da sucção, ao qual se seguem os de voltar-se, expressar-se, imitar e jogar. Contudo, o
comportamento instintivo não é a
propriedade característica do homem. Neste se encontra, antes, uma ampla "
redução do
instinto" (Gehlen), de
sorte que não existe nenhuma gradação entre o conhecimento instintivo e o intelectivo-racional, nem se pode considerar o
instinto como primeiro
estádio ontogenético ou filogenético das operações mentais superiores. Além disso, no homem o
instinto não está tão univocamente determinado como no animal, aparecendo subjetivamente, as mais das vezes, como um
estado emocional difuso e pobre de conteúdo
representativo que, sem
reflexão teleológica se traduz diretamente numa atuação'
A
explicação filosófica do
instinto tem seguido diversos caminhos, de
acordo com as pressuposições sistemáticas. Progresso
essencial, mostra-o a moderna
investigação do comportamento (Lorenz, Seitz, Tinbergen e outros), a qual elevou os estudos sobre o
instinto à
categoria de
ciência experimental de
conceitos rigorosos: trabalhos dirigidos a estabelecer uma
separação nítida entre os
reflexos, e a
experiência, por um lado, e os verdadeiros componentes do
instinto, relativamente rígidos e especificamente típicos, por
outro;
análise minuciosa dos esquemas desencadeados (
prova de surpresa); trabalhos tendentes a mostrar a
ação conjugada variável de
reflexo, automatismo, experiência e ação instintiva.
A doutrina
escolástica do
instinto é, na
esfera da
filosofia da
natureza, uma
parte da
problemática relativa aos graus essenciais da
vida; na esfera da
psicologia, constitui uma parte da doutrina sobre os
sentidos internos. Situado assim no
lugar que lhe compete, o
instinto, como
faculdade cognoscitiva e apetitiva pertencente à
sensibilidade interna, diferencia-se de
todo processo condicionado por puros
reflexos. Além disso, a habilidade instintiva distingue-se claramente da
memória sensitiva. Ao formular esta
distinção, a
escolástica está concorde com os resultados da moderna
investigação do
comportamento, ressalvada porém a
separação, amiúde demasiado rigorosa, que esta estabelece entre os distintos componentes da
ação, ensinando a conceber o
instinto como vis aestimativa (
faculdade de julgar [
juízo] de
natureza sensitiva) dentro do conjunto do
conhecimento sensorial, vis (¡estimativa que, de
modo objetivo e
teleológico, aplica ao caso
concreto os sinais recebidos por
meio dos
sentidos externos (e recolhidos pelo
sentido comum). Todavia,
dado que muitas vezes os animais buscam o
objeto apetecido sem que este jamais lhes tenha sido dado na
experiência, e atendendo a que na ação "em
estado vazio" (Lorenz) a atuação instintiva se perfaz sem objeto teleológico
exterior, ó
necessário que à "estimativa" se antecipe algo configurado pela
fantasia anteriormente a toda
experiência ("coordenação hereditária"). Com a "
prova de surpresa", as modernas pesquisas sobre o
instinto demonstraram claramente existirem em muitos animais estas "imagens da fantasia" previamente cunhadas e condicionadas pela hereditariedade (
esquema da presa, esquema do inimigo, etc). Muitos destes esquemas se moldam, quando o
estado excitante interno, que comunica
impulso às
ações instintivas, alcança determinada
intensidade. — Como o
animal, nas ações instintivas, tende ao
fim de maneira objetivo-racional (sem
intelecção subjetiva da
teleologia), o
instinto é um caso peculiar da
finalidade e apresenta os mesmos problemas que ela. — Haas. [
Brugger]
O
termo instinto significa aguilhão,
acidente,
estímulo. Daqui deriva o
sentido de
instinto como estímulo
natural, como conjunto de ações e reações primárias primitivas e
não conscientes.
O
instinto foi definido pelo
pragmatismo como “a
faculdade de atuar de tal
modo que se produzam certos fins sem
previsão dos fins e sem prévia preparação”. Alguns psicó
logos têm mantido que os instintos são sempre cegos e invariáveis, mas os pragmatistas negam-no. A cegueira e invariabilidade dos instintos são propriedades que podem aplicar-se a instintos já constituídos e que têm funcionado, ou continuam a funcionar, durante um
tempo relativamente longo, mas não à maneira como foram formados os instintos.
Tem-se discutido com frequência a
relação em que se encontram os instintos com os hábitos. Tem sido frequente admitir-se que os primeiros estão mais arreigados ou são mais fundamentais que os segundos, mas é difícil estabelecer-se sempre uma
diferença cortante entre eles. Tem-se discutido também se os instintos se contrapõem sempre aos atos inteligentes ou se os instintos, ou pelo menos alguns deles, são atos inteligentes depois mecanizados. Também se tem examinado a relação que existe entre
instinto e
reflexo. Tem sido comum considerar este como puramente automático, ou como mais automático que o
instinto. A relação entre
instinto e
impulso é sempre pouco clara, mas sugeriu-se que, diferentemente da maior
parte dos instintos, os impulsos são
ações ou reações profundas e geralmente violentas.
Bergson defendeu a concepção do
instinto como um
modo especial de
ação e de
conhecimento, e a
contraposição entre
instinto e
inteligência. A
definição da
consciência como
adequação entre o
ato e a
representação permite
apreender também, segundo Bergson, a
natureza do
instinto: enquanto a inteligência se orienta na consciência, que é
perplexidade e
possibilidade de
escolha, o
instinto orienta-se na inconsciência, e por isso é plena segurança e firmeza. A
forma especial de ação e conhecimento que o
instinto representa é definida pelo
fato de
ser vivido diferentemente do mero ser pensado da inteligência. Daí que o
instinto conheça imediatamente
coisas, isto é, matérias do conhecimento, existências, ao passo que a inteligência se inclina sobre relações, quer dizer, formas do conhecimento,
essências. O
instinto é
categórico e limitado; a inteligência é hipotética, mas ilimitada, e por isso pode, diferentemente do
instinto, superar-se a si mesmo e chegar até uma
intuição que irá ser a definitiva
ruptura dos limites em que estão encerrados cada um por seu lado, o
instinto e a inteligência. Por isso a diferença entre estes é coroada com a precisa
fórmula bergsoniana de que “há coisas que só a inteligência é capaz de procurar, mas que,
por si mesma, nunca encontrará. Só o
instinto as encontraria, mas jamais as procurará”. [
Ferrater]