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Author : mccastro
Article ID : 54
Audience : Default
Version 1.00
Published Date: 2008/5/13 8:25:22
Reads : 1127
A noção de "meio"

Uma tentativa de compreensão da gênese do chamado "ambiente virtual", tão em voga nos dias atuais.Mais um passo sobre nossa reflexão anterior, Ambiente Virtual.

Ambiente Virtual – ontogênese


Conceituado o que seja “ambiente virtual”, a partir da analítica existencial de Heidegger sobre a condição de ser-no-mundo do Dasein, pode-se esboçar uma tentativa de definição preliminar enquanto mundo circundante (Umwelt) imediato, onde todo e qualquer instrumento encontra-se à dis-posição do Dasein em sua ocupação informacional-comunicacional (vide nosso ensaio “Ambiente Virtual”).

Sobre esta conceituação sumária, baseada em termos filosóficos chaves de "Ser e Tempo" §15-17, pode-se avançar um passo, na tentativa de sem perder esta matriz de pensamento fundamental para nossa abordagem, fazer ressaltar a totalidade instrumental que configura este ambiente virtual, determinando a orientação da ocupação do Dasein para a lida com atos e fatos de natureza informacional e comunicacional.

Esta totalidade instrumental, construída sobre um engenho de representação, conforme se caracteriza a tecnologia da informação e da comunicação (ou o computador, tout court), se constitui pela projeção sobre este engenho de sombras lógicas e digitais (na forma de algoritmos e dados simbólicos), capazes de reproduzir em parte ou na íntegra atos e fatos da ocupação cotidiana do Dasein, enquanto ser-no-mundo.

O computador, enquanto engenho de representação, dis-põe o “meio” no qual se reúne e se articula a totalidade instrumental, que diante de cada ocupação irá garantir o dar-se e propor-se da informática, segundo o teor e a textura dos atos e dos fatos apropriados em parte ou na íntegra sob o modo informacional-comunicacional.

Cada instrumento da totalidade instrumental, por si só ou em composição e remetimento aos demais instrumentos da totalidade, se encarrega de representar no engenho um ambiente virtual. Um mundo circundante onde se reúnem as condições de possibilidade de uma ocupação informacional-comunicacional, que assim encerra o Dasein em um ser-no-mundo-informacional-comunicacional.

Este processo, no próprio se dar e se propor da informática, ocorre através da desconstrução-reconstrução dos atos-fatos que a informática instrumentaliza, em representações lógicas de suas regras e eventuais operações (algoritmos) e em representações em dados simbólicos de seus atributos e propriedades. Um exemplo típico, e muito contundente, é o instrumental de informação e de comunicação que simula uma sala de bate-papo, chamado “chat”, onde a informática se dá e se propõe como um ambiente virtual de encontros e debates.

Entendida a essência do ambiente virtual, de um modo geral, pode-se partir para a investigação de diferentes implementações de ambientes, consoante a ocupação a que se destinam. Por exemplo, pode-se tomar como objeto de estudo o ambiente virtual de ensino e aprendizagem, onde tutores e discípulos se encontram em uma ocupação de ensino-aprendizado. Mas seria de bom alvitre, antes de entrarmos na especificidade de qualquer ambiente virtual, examinar a noção heideggeriana de ocupação, e em particular sua qualificação de informacional-comunicacional.

A ocupação (Besorgen) é um modo de “ser-no-mundo” do Dasein. Com a facticidade que lhe é próprio, o Dasein se encontra sempre disperso e disseminado em modalidades determinadas de “ser-em...”, como por exemplo: lidar com alguma coisa, empreender, pesquisar, interrogar, considerar, discutir, determinar.... Segundo Heidegger, são também modalidades de ocupação os modos deficientes, tais como: se abster, omitir, renunciar, enfim modalidades relativas a possibilidades de ocupação que se designam por um "sem mais". O termo Besorgen guarda um sentido pré-científico que poderia ser também traduzido por prover, operar, ou, ainda melhor, “dis-por”, como o fez Carneiro Leão para as diferentes formas de “stell”, na "Questão da Técnica".

Na investigação filosófica de Heidegger, o termo “ocupação” é utilizado como “existencial” servindo para designar o ser de um ser-no-mundo, não no sentido da praticidade do Dasein, mas porque este ser deve manifestar-se como "cura" (Sorge), enquanto noção estrutural ontológica. Dito de outro modo, é porque o ser-no-mundo pertence essencialmente ao Dasein que seu ser em relação ao mundo é essencialmente ocupação.

Como se pode perceber, a partícula “em”, compreendida em seu sentido existencial, na expressão ser-no-mundo, reveste-se de um significado maior e mais profundo que se manifesta em diferentes maneiras de se comportar, de se conduzir, de agir, e outras tantas, todas irredutíveis ao aspecto puramente cognitivo. Assim é que “conhecer alguém ou algo” é sempre algo maior e distinto de armazenar certo número de informações concernentes a este alguém ou algo. A diversidade de maneiras de se comportar, correspondentes a tantas maneiras de ser-no-mundo, é tal que se leva a abrir questionamentos do tipo: há um denominador comum em todas elas que nos autoriza falar, como Paul Ricoeur, em “unidade analógica do agir humano”? A redução da diversidade de maneiras de se comportar, a uma forma única de ocupação, no caso informacional-comunicacional, permitiria se falar em “ser-no-mundo-virtual”, como condição a ser urgentemente investigada?

À primeira questão, a resposta de Heidegger é afirmativa. Inclusive elaborando uma reflexão sobre esta estrutura existencial comum: a ocupação (Besorgen), e sobre seu fundamento ontológico, a cura (Sorge): “O Dasein, compreendido ontologicamente, é cura” (SZ 57). Sendo assim, na medida que o mundo não é um super-continente, tudo que há ao nosso “redor" (um), tudo que nos cerca, nosso meio imediato, é o que Heidegger denomina “mundo circundante” (Umwelt), e que prefiro denominar "ambiente" ou “meio”: “O mundo próximo do Dasein é o mundo ambiente (Umwelt)” (SZ 66).

Quanto à segunda questão, é um dever investigá-la, não com o espírito de demonizar o virtual, mas de devidamente compreendê-lo em suas possibilidades e limitações. Com efeito, o ambiente virtual, que cerca à ocupação informacional-comunicacional reduz a ocupação a seu aspecto puramente cognitivo. A diversidade de maneiras de se comportar, compreendida em seu denominador comum ontológico, a ocupação, se dá apenas como cognição: “conhecer alguém ou algo”, neste ambiente virtual, é lidar (Umgang = comércio) com informações armazenadas em e comunicadas por, um engenho de representação, o computador.

O ambiente virtual se constitui, portanto, nesta desconstrução do cotidiano, que nos cerca (Umwelt), em representações digitais, por uma seqüência de transformações metafóricas, até sua reconstrução em ambiente virtual, onde se pretende reproduzir este Umwelt, sob o modo informacional-comunicacional, especialmente a totalidade instrumental que o compõe. Interessa agora entender estes qualificadores “informacional” e “comunicacional” para completar a caracterização do ambiente virtual.

O qualificador informacional provém do substantivo “informação”, tão propalado nos dias de hoje, a ponto de significar tudo e o que quer que seja, na medida que tudo e o que quer que seja pode ser apenas uma “informação”. O processo acelerado da informatização da sociedade, tão bem profetizado por Carneiro Leão, parece suficiente como justificativa desta ubiqüidade da noção e do termo "informação" no mundo moderno: “Cada vez mais circulamos em circuitos integrados de larga escala. O cilício, que hoje nos ameaça, é de silício. O desafio, que hoje nos atinge, provém de uma autocracia informacional. A informática se torna um rolo compressor. Em seu tropel a sociedade rola de alto a baixo. Tudo se processa. Por toda a parte opera um micro. Nenhuma força de tradição parece poder resistir à atropelada da computação. As novas gerações de computadores prometem interface para tudo. Aumenta sem cessar o número de periféricos. Pois o grande periférico visado é o homem que espera o inesperado. Pois neste caso nada poderá fugir a informatização.” (Carneiro Leão, 1992, pág. 93)

A aplicação indiscriminada da informática, diante de uma participação humana cada vez mais reduzida ao operacional e periférico da técnica, dissemina uma multidão crescente de fantasmas informacionais, em fluxo contínuo, que se faz reproduzir pela teia (web) que conecta os engenhos de representação. A informatização segue sua realização a partir das formas capturadas e recodificadas da razão e da memória.

Com efeito, esses fantasmas informacionais uma vez capturados no formato digital das tecnologias da informação e da comunicação, se reproduzem segundo padrões ditados pelo próprio engenho, à medida que vão sendo metamorfoseados por suas linguagens de programação e estruturas de armazenamento de dados simbólicos.

Apreendidos assim em bases de dados, pela malha cada vez mais fina de sistemas classificatórios distintos e processos sofisticados de digitalização, estes fantasmas ganham consistência e se materializam sob a técnica da informação, perambulando soltos na névoa dos chamados sistemas de informação e na teia da Internet.

Mas o que é isso, informatizar?
Para o Pensamento, informatizar não é o verbo que designa os fatos e feitos da informática. Não nos remete apenas para o funcionamento de ferramentas e aparelhos, não se refere a dispositivos de processamento ou a instalações de computação, com todas as mudanças que acarretam. A informatização não é o resultado da expansão mundial de uma parte, de sorte que a totalidade resultante fosse o todo de uma parcialidade geral. A informatização não se reduz a transferir determinada integração de ciência e técnica, de conhecimento e ação para todas as áreas em que se distribuem os homens histórica e socialmente organizados. Informatizar é o processo metafísico de Fim da História do poder ocidental. Na informatização e por ela, o poder de organização da História do Ocidente se torna planetário. A dicotomia de teoria e prática, de mundo paciente de objetos e mundo agente dos cérebros vai sendo superada numa composição absorvente. Por ela se complementam, numa equivalência de constituição recíproca, o sujeito e o objeto, o espírito e a matéria, a informação e o conhecimento, o mundo dos cérebros e o mundo das coisas. A luta entre materialismo e idealismo se torna, então, uma brincadeira de criança. O pessimismo e o otimismo se transformam em categorias inofensivas para classificar irmãos de uma mesma família. Sendo um verbo de essência, informatizar nos precipita na avalanche de um poder histórico de realização. Por isso não indica primordialmente o processamento automático de conjunturas, mas um processo autocrático de estruturação, que tudo aplana, tudo controla, tudo contrai numa, composição onipotente. A terra e o mundo, a história e a natureza, o ser e o nada se reduzem a componentes de compatibilidade universal. A informatização é uma voracidade estrutural em que todas as coisas, todas as causas e todos os valores são acolhidos, são defendidos, são promovidos, mas ao mesmo tempo perdem sua liberdade e fenecem em criatividade. (Carneiro Leão, 1992, pág. 94)

Definido o processo nos voltemos a coisa em si, a informação, de onde se origina o qualificador “informacional”. O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação”? O sentido medieval de informare guardava a conotação clássica de moldar ou formar a matéria pela ação do artista, mas dirigida então à possível ação humana de aplicar ensinamentos em ou para a formação interior de um indivíduo. Para alguns autores, como Rafael Capurro, esta noção não teria mais o peso de seu significado original no entendimento atual da noção de informação.

Capurro (2003) lembra que foi após a segunda grande guerra que o termo “informação” ganhou presença na linguagem científica fixando sua noção em 1948, através da cibernética de Norbert Wiener (1894-1964) e do trabalho de Claude Shannon (1916-2001) sobre comunicação . A partir de seu sentido cibernético e informacional-comunicacional, foi elaborado nos anos 1950 pela nascente Ciência da Informação, firmando a noção de “conhecimento comunicado”.

Ou seja, através da cibernética e da teoria da informação pensou-se encontrar a fórmula de materialização de algo denominado “conhecimento” que pode enfim ser transmitido como informação entre pessoas e máquinas, indiscriminadamente. Como afirmaria Heidegger, uma “dis-ponibilidade do des-encobrimento exploratório” da razão e da memória humanas, pela técnica moderna da informação.

A moderna noção de informação, especialmente na expressão “tecnologia da informação”, refere-se àquilo que se constitui na e pela tecnologia como uma representação digital de entes, atos ou fatos humanos, sob a configuração final de algoritmos operando sobre dados simbólicos. Esta configuração é assim capaz de “in-formar” uma representação do real em pessoas ou em outras tecnologias similares.

Essa representação armezanada nos circuitos eletrônicos de uma tecnologia da informação se constitui a partir da dissolução do objetivado em um conjunto de atributos que o definem como dados numéricos ou categorizados, ou, como se costuma denominar, como dados simbólicos, passíveis de serem operados por algoritmos que completam a re-presentação dos atos ou fatos humanos, objetivados.

Esse sentido de informação, como uma representação constituída artificialmente, é um perigoso simulacro do sentido original de informação. Escamoteia todo esse processo metodológico de apreensão e de dissolução do objetivado em um conjunto de dados simbólicos, que doravante passa a ser o modo de acesso a qualquer ente. Pior ainda, escamoteia também o “meio” imediato onde impera o “método” que faz o visado, o objetivado, dissolver-se e coagular-se em representação, sob a forma de dado simbólico. Este meio é o chamado “meio técnico-científico-informacional” (Santos, 1995), que Heidegger pressentia o predomínio em 1966: “Não vivemos a não ser em condições técnicas” (apud Milet, 2000).

E diante de toda esta elucubração sobre a informação, e o informacional, onde fica o comunicacional. Este se justifica por sua imanência à noção de informação, que só faz sentido na "passagem", na “transmissão” (como diria Régis Débray), na “pôr em comum” que se dá pela informação. Acrescente-se ainda o fato de na evolução histórica do computador, enquanto engenho de representação, ter prevalecido seu aspecto "comunicacional", defendido por Norbert Wiener (haja visto a explosão da Internet), ao invés do exclusivamente computacional, sustentado por John von Neumann , como nos esclarece Philippe Breton (1995).

Assim posto a ocupação informacional-computacional que se dá e se propõe pelo computador, é a manifestação artificial do Dasein, enquanto ser-no-mundo-virtual, em seu ambiente circundante virtual, constituído sobre o engenho de representação. A manualidade (Zuhandenheit) dos “entes-sob-a-mão”, desta feita sob o modo informacional-comunicacional, é o grande desafio a nossa compreensão da natureza do ambiente virtual, na medida que deve doravante orientar a investigação sobre ser-no-mundo-virtual.

Caberia como última etapa desta análise da ontogênese do ambiente virtual, buscar um entendimento sobre este qualificador de “virtual”, abusivamente utilizado. A partir da análise de Philippe Quéau, “Le virtuel: une utopie realisée », que reconhece o sucesso midiático do termo, e de sua aplicação indiscriminada, identifica-se no virtual uma noção clássica, como um estado do real, e não seu contrário. Na filosofia medieval, o que é virtual no real, são as essências, as formas, as causas ocultas, os porvires... O virtual é o princípio ativo, o revelador da potência oculta que opera sob o real.

Proveniente do latim “virtus”, virtude, que por sua vez tem sua raiz em “vir”, homem, o virtual tinha entre os romanos o sentido de verdadeiro: o homem “real” é o homem virtuoso, quer dizer “virtual”. Só a virtude pode transformar o real, e só o homem virtuoso-virtual pode realmente agir, pois ele somente pode se transformar naquilo que ainda não é.

Nos dias de hoje esta conotação forte se enfraqueceu, talvez pelo uso e aplicações intensas, sem a devida “virtude”, ou seja, com a perda da dimensão de “virtus”. Temos assim um virtual que se apresenta como “neo-realidade” se imiscuindo no real e o deslocando do centro que ocupava, assim como um virtual que se candidata como uma possível condição de inteligibilidade do real. Quéau muito bem define, o virtual de nossos dias é território e mapa ao mesmo tempo.

O virtual ainda não é cultura, menos ainda conceito. É metáfora, à disposição para todas as derivas semânticas, utópicas, mas também realistas. Uma metáfora que arregimenta uma totalidade instrumental, que provém desde efeitos especiais em mundos imaginários até a constituição de espaços sociais de interação, como se vêem sobre a Internet.

Para Quéau, o virtual é uma “escritura”. Todo sistema de escritura contém em germe, uma representação do mundo, uma nova maneira de interpretar o real. O virtual está, portanto, potencialmente em condições de estruturar nossa “Weltanschauung”, de propor uma nova economia de relações entre o real e nossas representações. O ciberespaço, onde o virtual se manifesta, não é assim uma Utopia, mas o “não-lugar” de desdobramento de um novo modo de ser-no-mundo, e conseqüentemente de pensar e de agir.

À civilização do “material” sucede uma civilização do imaterial, que se apóia sobre a infinita replicação das informações e sua disponibilidade em “tempo real”. A representação virtual se distingue da representação escrituraria ou da representação simbólica por alguns traços característicos: a universalidade da codificação de base (o digital), a ligação operatória entre linguagens formais e imagem, a calculabilidade, a capacidade de simulação e visualização sensível de modelos abstratos. As possibilidades e os limites do virtual estão justamente aí em sua natureza conceitual, e em sua construção pelo pensamento lógico-matemático, formal, abstrato.

A conclusão provisória é que o ambiente virtual, para ser devidamente investigado, requer como ponto de partida o reconhecimento de que nele se descortina a manifestação de um novo existencial, o ser-no-mundo-virtual, de cuja "virtude" de presença, de sendo que sempre se é, depende a condição de propriedade ou impropriedade, autenticidade ou inautenticidade neste mundo circundante de uma ocupação informacional-comunicacional.

Bibliografia
BRETON, Philippe (1995), À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris, Seuil.
CARNEIRO-LEÃO, Emmanuel (1992), Aprendendo a pensar. Volume II. Petrópolis, Vozes.
HEIDEGGER, Martin (1986/1998), Ser e Tempo. Trad. Marcia de Sá Cavalcante. Petrópolis, Vozes.
QUÉAU, Philippe (1996), Le virtuel: une utopie réalisée, in Quaderni n. 28.

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