Tese de doutoramento em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2005.
Author : mccastro
Article ID : 52
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Version 2.00
Published Date: 2008/5/12 16:55:20
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Tomando por base a reflexão iniciada por Michael Zimmerman, em seu ensaio “Heidegger, Buddhism, and deep ecology” (The Cambridge Companion to Heidegger), examina-se a questão do nada e do ser.
Sobre o "nada" e o "ser"
Qual seria a importância filosófica da idéia de “nada”. Comumente ao se pensar no “nada”, associamos em nossa mente a ausência de qualquer coisa que seja, o vazio em um sentido negativo. No pensamento ocidental o “nada” foi "pensado" pelos místicos, como Mestre Eckhart, cujos escritos influenciaram Heidegger (Caputo, 1986).Eckhart afirmava que “Deus” está muito além de nossas categorias conceituais, que só são apropriadas para compreender “criaturas”, a criação. Ao invés de falar de Deus em termos positivos, melhor seria falar da Nadidade Divina. O Divino não pode ser visto como uma super entidade existindo em algum lugar, mas ao contrário constitui uma abertura ou vazio incondicionado no qual todas as coisas aparecem. O que nos faz lembrar um grande iluminado da tradição judaica, Isaac Luria, que afirmava que a criação teve início se abrindo em Deus um vazio, onde então se manifestou a criação.
Mestre Eckhart afirma ainda que o ser humano é uno com esta abertura, não havendo distinção entre a alma e o Divino, e que assim todo aquele que despertasse para a Nadidade Divina esqueceria tudo sobre "Deus" e viveria uma vida de desapego (Gelassenheit), movido pela compaixão por libertar o que se encontra em sofrimento, identificado com a matéria.
A noção de Heidegger, de que a existência humana é a abertura, clareira, ou nadidade onde as coisas podem se manifestar é grandemente devedora do misticismo cristão, e provavelmente um resíduo importante de sua passagem como seminarista, estudante de Teologia. Para estes místicos que ele se voltou, o “si mesmo” não é um ente que se coloca em oposição de modo dualístico com os demais entes. Ao contrário, é a clareira na qual entes (incluindo pensamentos, sentimentos, percepções, coisas,...) aparecem. A idéia de que os seres humanos não são apenas entes mas esta clareira na qual entes aparecem permitiu a Heidegger superar não apenas o dualismo sujeito-objeto, mas também a valorização das coisas exclusivamente por sua serventia aos interesses humanos.
A noção mística da nadidade já se apresenta em Ser e Tempo, embora ainda disfarçada em um vocabulário complexo. Sua questão maior nesta obra é: Como é possível para humanos compreender entes como entes? Para respondê-la ele distingue a compreensão humana das coisas de qualquer outra compreensão que se queira atribuir ao outro ente vivo: somente o humano é capaz de notar que as coisas são. Nós, seres humanos, compreendemos a nós mesmos e a outras coisas como entes, ou seja, como coisas “sendo”.
Normalmente, os filósofos consideram a compreensão como uma faculdade da “mente”, a “coisa pensante” em sua tentativa de apreender coisas extra-mentais. Heidegger critica esta degeneração dita cartesiana, que concebe o humano como substância auto-consciente, ou como sujeitos confrontados a objetos, em uma espécie de vacuidade de mundo. É neste sentido que Heidegger sustenta que o ser humano não é uma simples coisa, mas uma espécie singular de nadidade: a clareira temporal-lingüística, a abertura, a ausência na qual as coisas se apresentam ele mesmas e deste modo “são”.
O humano não sendo simples coisa, o conhecimento humano deve ser repensado, não como relação entre sujeito e objeto, mas como uma ocorrência que se dá pela abertura que constitui a existência humana, em termos de três dimensões: passado, presente, futuro. Estas dimensões mantém aberto os horizontes pelos quais os entes podem se manifestar de modos determinados, por exemplo, como: instrumentos, objetos, pessoas.
A compreensão humana, então, não se dá dentro da mente fechada em um cérebro, mas ocorre porque a temporalidade humana é receptiva aos modos particulares que as coisas se apresentam e se manifestam elas mesmas. É importante notar que o que ordinariamente é tomado como constituinte último da “mente” (pensamentos, crenças, asserções, etc), são para Heidegger fenômenos que ocorrem dentro da clareira temporal constitutiva da compreensão humana.
Assim como no caso da “compreensão”, Heidegger define “ser” de uma maneira diferente da maioria dos filósofos. O ser do ente é geralmente definido como sua base ou substância, que assim provê o “fundamento” para a coisa. Heidegger entende que para algo "ser" significa que este algo se re-vela ou vige a si mesmo. Para esta "presentificação" ou “vigência” (como prefere traduzir Carneiro Leão, o termo Anwesen) deve haver uma clareira, uma abertura, um vazio, um nada, uma ausência (Abwesen). O que nos faz lembrar a tradição islâmica que fala de criação contínua.
A existência humana constitui a abertura necessária para ter lugar, ou se dar, a presentificação (ser) dos entes. Quando esta presentificação ocorre através da abertura que eu sou, encontro um ente como um ente, ou seja, compreendo o que “é”. Heidegger utiliza o termo “Dasein” para denominar esta receptividade peculiar da existência humana para o ser (auto-manifestação) dos entes. Em alemão, “da” significa “aí” ou “ali”, enquanto “sein” é o verbo alemão “ser”. Assim sendo, dasein significa o “lugar” no qual sendo ocorre, enquanto abertura na qual a presentificação se dá. Para Heidegger, nem temporalidade (ausência, nadidade) nem ser (presentificação, auto-manifestação) é um “ente”. pelo contrário, são condições de possibilidade de aparecimento dos entes. Nunca vemos o tempo ou tocamos a presentificação da coisas, ao invés vemos e tocamos as coisas que se manifestam ou se apresentam elas mesmas.
A vista destas considerações, o significado do título da obra maior de Heidegger, “Ser e Tempo”, se torna compreensível. Sua meta era estudar o relacionamento interno entre ser e tempo. Porque ser e tempo, presentificação e ausência, manifestação e nadidade, carecem de qualquer propriedade fenomênica ou empírica, parecem ser “nada” no sentido meramente negativo de um “vapor vazio” (Nietzsche). Para Heidegger, no entanto, presentificação (vigência, como prefere Carneiro Leão) e ausência “são dignos de pensar”.
Bibliografia
Caputo, John D. (1986), The Mystical Element in Heidegger's Thought. Fordham University Press, New York.


