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Author : mccastro
Article ID : 49
Audience : Default
Version 1.01
Published Date: 2007/11/4 7:22:25
Reads : 1343
Informatização

As transformações metafóricas na aplicação da informática


Elaboração sobre artigo anterior "A Informática - engenho de representação"


O engenho de representação sob a informática

Murilo Cardoso de Castro

Doutor em Filosofia, UFRJ


Martin Heidegger, em um de seus ensaios, “A época das concepções do mundo” (1949/1962, pág. 99-146), faz uma longa meditação sobre a essência da Modernidade, ou dos Tempos Modernos, a partir do questionamento a respeito da “concepção moderna do mundo”. Segundo ele, a metafísica funda uma era ao meditar sobre a essência de um ente, estabelecendo uma interpretação determinada do ser e do ente, e, ao mesmo tempo, ao decidir por uma acepção da verdade, fixando o modo pelo qual ela advém.


Meditando sobre fenômenos característicos de uma era, pode-se entrever aspectos da metafísica que a orienta. No caso da Modernidade, entre os fenômenos onde os “sinais do Tempo” são vestígios seguros da metafísica que a sustenta encontram-se, para Heidegger: a ciência, a técnica, a arte, a cultura.


Metafísica aqui é tomada num sentido bastante particular e determinado, que só pode ser esclarecido pela totalidade de sua filosofia. Segundo as indicações de Jean Ladrière (sem data), a metafísica é, para Heidegger, uma maneira de determinar o ente.

Neste sentido, o que Heidegger, chama de ente1, em conformidade com toda a tradição filosófica ocidental, é tudo aquilo que de uma maneira ou de outra pode servir de sujeito ao verbo ser na terceira pessoa do singular. Por conseguinte, tudo aquilo que, a qualquer titulo, pode ingressar no campo da experiência, quer se trate da percepção, da imaginação, do sentimento, do pensamento especulativo, da experiência poética ou da experiência mística.


A metafísica dos Tempos Modernos, imanente à concepção moderna de mundo, distingue-se daquela que sustentava a concepção medieval de mundo e a concepção antiga de mundo, na medida em que, nestas últimas, o homem não representa o mundo, ou melhor, não faz o mundo se apresentar diante de si por meio de uma representação, princípio dominante na metafísica da Modernidade.


Entendendo representação2 como uma espécie de imagem do mundo, reproduzida na imaginação do homem a partir da percepção, Heidegger conclui que só a partir do final da Renascença se constitui efetivamente este tipo de representação do mundo a partir da percepção subjetiva, fazendo do sujeito um absoluto e do mundo um espetáculo separado.


Como indica Heidegger, o que faz da concepção do mundo dos Tempos Modernos, algo totalmente distinto das concepções do mundo medieval e antiga, é “que o ente se torne ente na e pela representação”. É preciso cautela neste entendimento. Não foi o Mundo, enquanto imagem concebida que se tornou moderno, deixando de ser medieval. Com efeito, o que caracteriza e distingue os Tempos Modernos é justamente o Mundo ter se tornado uma imagem concebida.


Segundo Heidegger teria havido, em relação ao ente, uma atitude inteiramente distinta a partir dessa época. Neste sentido, uma metafísica distinta daquela da Idade Média e daquela da Antigüidade grega. Ele a chama de “metafísica da representação”. Onde o termo representação se baseia numa metáfora, na verdade, numa dupla metáfora: falamos de representação para caracterizar o estatuto de um representante, de algo que age em nome de outro; mas, também falamos de representação para designar a realização efetiva de um espetáculo, onde o espectador é um puro olhar abstrato, e o espetáculo está presente diante do espectador, como objeto.


A primeira metáfora sugere a idéia de algo que faz às vezes de outrem ou de outra coisa: a representação é uma espécie de transferência de atribuição em virtude da qual uma pessoa pode agir em nome e lugar de outra, servir de lugar-tenente para a pessoa que ela representa. A segunda metáfora, por sua vez, sugere a idéia de presentificação: a representação expõe diante de um espectador, sob uma forma concreta, uma situação significante, figuras evocadoras, encadeamentos de ações exemplares; deste modo, torna presentes o destino, a vida, o curso do mundo, no que eles têm de visível, mas também em suas significações invisíveis.


Do ponto de vista filosófico, a metáfora da representação é utilizada para significar que o ente é interpretado como um espetáculo dado a um espectador; e aquilo que é assim dado em espetáculo, desempenha o papel de um substituto da realidade. Mas o espectador, na ocorrência, é de certa forma desvanecente: não é um ente ao lado dos outros, mas um puro olhar. Esse puro olhar, este puro espectador, é o que a filosofia moderna chamou de "sujeito". Se acompanharmos a evolução da filosofia moderna em suas diferentes peripécias, perceberemos que a noção de sujeito cada vez mais se empobrece. Em Descartes, o sujeito ainda é uma substância, uma "coisa pensante". Em seguida, porém, o conceito de sujeito se purifica. O sujeito se torna, por assim dizer, uma pura função do olhar; converte-se nesta pura instância pela qual o mundo é constituído em espetáculo. A realidade se esgota no fato de ser para um sujeito; o ente é constituído em objeto e interpretado como tal. (Ladrière, sem data, pág.19)


A problemática da representação em si e no tocante a representação de entes, através de discursos descritivos, dados quantitativos, modelos matemáticos e estatísticos, cartas e mapas, imagens de satélites, reúne por si só temas de reflexão que acumularam e ainda acumulam uma imensa bibliografia. Tanto mais pela importância, e, em grande parte, pelo natural modismo da simulação e do virtual, em uma pretensa Era da Informação e da Comunicação, que se revela em plena sintonia com a metafísica3 dos Tempos Modernos, ou, melhor dizendo, com a Weltanschauung moderna.


Na dita qualificação informacional de nossa era, ganha um significado todo especial a problemática da representação. Primeiro, porque demanda uma maior abertura de todos os interessados na informatização da sociedade, para a necessária reflexão das questões pertinentes à representação digital de qualquer ente. É da maior importância a crítica de instrumentos como a tecnologia da informação, presumivelmente capaz de modelar e analisar fenômenos, sob a forma digital. Segundo, porque na própria aplicação da informática, ou seja, no dar-se e propor-se da informática sobre tal “engenho de representação”, constata-se um estranho jogo de diferentes representações.


Em termos bem concretos, na aplicação da tecnologia da informação, enquanto engenho de representação, em um processo de informatização, desponta o que poderíamos denominar “modelo informacional-comunicacional digital”, como paradigma na construção da representação de um ente. Enquanto instrumento deste novo Discurso do Método, este modelo informacional-comunicacional, exógeno a qualquer disciplina que dele faça uso, determina a constituição de uma espécie de “eidos digital”, ou seja, orienta a forma digital da representação de um ente.


Esse modelo informacional-comunicacional, que define a representação digital de um ente, ou seja, este modelo digital que o engenho irá doravante pro-por e dis-por, se oferece como uma espécie de metáfora digital do ente visado. Esta metáfora digital, consoante este modelo, é constituída, por sua vez, pela iteração homem-computador, ou seja, homem equipado com sua "tecnologia da informação", em interação e simbiose metodológicas: homem-engenho de representação.


O processador do modelo informacional-comunicacional, residente no engenho, segundo sua configuração tecnológica, hardware e software, está construído para receber um conjunto de “dados simbólicos”4 referentes à forma, à estrutura e às propriedades de qualquer ente de interesse, sobre o qual se tenha dirigido um olhar objetivante, segundo a metafísica da Modernidade: onde o ente se torna ente na e pela representação.


Para melhor entendimento, tomemos o caso de uma pesquisa científica, onde o pesquisador tenha seus objetos de estudo devidamente conceituados. Ou seja, consideremos que, segundo a metafísica da Modernidade, as essências dos entes de observação e análise de seu domínio disciplinar estejam adequadamente representadas na sua matriz teórica de abordagem de sua pesquisa.


Podemos afirmar que nas iterações metodológicas deste pesquisador com seu computador (equipamento, programas e dados) no processo de investigação de determinados objetos de estudo, desencadeia-se uma sucessão de transposições que transformam sucessivamente seu modelo conceitual dos entes de pesquisa em modelo informacional-comunicacional, ou seja, traduções de metáforas do campo de observação, em outras metáforas. Razão pela qual, estudiosos do processo cognitivo dão a este processo a denominação de “transformação metafórica” 5.


Uma série de transformações metafóricas se dão desde a apreensão, segundo um “olhar científico” e a matriz teórica pertinente, do objeto de estudo sendo investigado, enquadrando-o segundo uma representação, uma objetivação ou metáfora científica de nossa percepção e de nossa idealização do mundo, que é, por sua vez, conduzida metodologicamente através de sucessivas metáforas, até compor o “modelo conceitual", do domínio de investigação.


A partir deste modelo conceitual abstrato, elaborado intelectualmente em sua escala específica de investigação, procede-se à transformação em outra metáfora, pela transposição deste modelo, ou melhor, das entidades e relacionamentos que o configuram, em “dados simbólicos” descritivos dos objetos de estudo visados dentro deste domínio. Estes dados são justamente simbólicos à medida que registrariam as essências destes entes, em conformidade com a representação outorgada pela metodologia científica em vigor. Em geral, estes dados são documentados em formatos reduzidos a modelos textuais (textos digitais), modelos tabulares (tabelas de dados) e modelos analógicos (gráficos e imagens), modelos matemáticos e estatísticos, etc.


Finalmente, a partir desse conjunto de modelos textuais, tabulares e analógicos da realidade, pratica-se mais uma transformação metafórica, para se alcançar o “modelo informacional-comunicacional digital” do engenho, que configura, por sua vez, estes dados simbólicos em bases de dados digitais armazenadas no engenho. Chega-se, deste modo, ao ponto onde se reúnem quase todas as condições de possibilidade, para o tratamento informacional-comunicacional da pesquisa. Condições que permitirão ao engenho desempenhar sua funcionalidade, sob o comando do pesquisador.


Toda esta sucessão de transformações segue uma metodologia teleológica, segundo as determinações do engenho, destino final da transposição dos objetos de estudo de sua condição abstrata-intelectual à condição abstrata-digital. O engenho atuando à semelhança de “tele-sujeito” de toda esta sucessão de transformações metafóricas, juntamente com o pesquisador, garante a chegada à metáfora final, o modelo informacional digital, a partir do qual, através do poder de analise e de representação do engenho, pode ser produzida uma variedade de apresentações virtuais do fenômeno, ora digital, na tela do computador ou em papel.


Funções de programação disponíveis no engenho completam as condições de possibilidade, que assim mobilizam a última transformação metafórica do “modelo informacional-comunicacional digital”, em “modelo virtual”. Modelo este capaz de ser reproduzido em outras combinações pesquisador-computador, em diferentes apresentações virtuais do campo de investigação e seus objetos de estudo, no espaço delimitado do monitor (vídeo) de um micro ou da folha de papel de uma impressora.


Sobre esse modelo virtual é possível se aplicar todas as funções de manipulação, de análise e de simulação, de construção e de apresentação de todo o gênero, re-discursando sobre o fenômeno original, ora virtual, sob diferentes formas discursivas, tais como tabelas, gráficos, figuras, etc. As funções disponíveis no engenho de representação regem a interação pesquisador-computador, assumindo o papel de tele-sujeito unificador, deixando o pesquisador que interage com o computador, muitas vezes, como mero espectador, aparentemente ativo pelo simples fato de “comandar” o engenho.


Podemos resumir as transformações metafóricas como uma espécie de cálculo teleguiado e finalmente desempenhado pelo engenho, em termos de re-presentação do fenômeno: onde se ficcionam imagens de atos e fatos humanos, tornando-os além de fictícios, manipuláveis. Tratam-se de “ficções calculadas” e, como tal, de antecipações construídas sem referência integral a qualquer aspecto pré-dado, pois seria impossível açambarcar todas as referências necessárias à conjuntura dos atos e fatos. O cálculo, portanto, revoluciona o estatuto da re-presentação de um ato ou fato, que deixa de ser o que é para se tornar algoritmo+dados simbólicos.


É interessante notar que, para alguns teóricos do engenho deveria se instalar pela interface oferecida pelo engenho, uma interação de co-responsabilidade complexa com o usuário do engenho. Ou seja, seria necessário nesta interação, um nível de competência equivalente entre as partes envolvidas, usuário e engenho, para se acompanhar e controlar o conjunto de transformações metafóricas entre: modelos conceituais, na cabeça da pessoa; modelos informacionais-comunicacionais digitais, enquanto programas e base digital de dados; e, modelos virtuais, elaborações sobre os modelos anteriores, mas apresentados na interface homem-máquina.


Dentro desse enredo multifacetado, as novas formas de abordagem conceitual e de representação do ente, aportadas pelo engenho, merecem uma critica radical. Primeiro, porque descortinam uma perspectiva sui generis para a compreensão do engenho, a partir do dar-se e propor-se da informática. Segundo, porque oferecem à reflexão uma série de problemas filosóficos, cognitivos e técnicos que se dissimulam, sob dar-se e propor-se.


Segundo Hubert Dreyfus (sem data) está em jogo o velho sonho cartesiano de que toda compreensão do ente consiste em formar e usar representações simbólicas, que se acreditava serem constituídas de descrições complexas construídas sobre idéias primitivas ou elementos. Kant adicionou a idéia importante de que conceitos implicavam em regras. Frege demonstrou que as regras poderiam ser formalizadas de modo a serem manipuladas sem intuição nem interpretação. A pesquisa em informática só fez estender e implementar a proposta, concebendo no caminho a possibilidade de que a razão e a memória humanas poderiam finalmente serem codificadas como algoritmos e dados simbólicos.


Bibliografia

DREYFUS, Hubert L. (sem data), From Socrates to Expert Systems: The Limits and Dangers of Calculative Rationality. Site do Prof. Dreyfus: http://ist-socrates.berkeley.edu/~hdreyfus/html/papers.html

HEIDEGGER, Martin (1949/1962), Chemins qui ne mènent nulle part. Trad. Wolfgang Brokmeier. Paris, Gallimard.

anchoranchor HEIDEGGER, Martin (1954/2002), Ensaios e Conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis, Vozes.

INWOOD, Michael (2002), Dicionário Heidegger. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.

LADRIÈRE, Jean (sem data), Ética e Pensamento Científico. São Paulo, Letras & Letras.

LAKOFF, George & JOHNSON, Michael (1985), Les Métaphores dans la Vie Quotidienne. Paris, Les Editions de Minuit.

LAKOFF, George (1987), Women, Fire, and Dangerous Things: What Categories Reveal about the Mind. Chicago, University of Chicago Press.



1 Trata-se de tudo aquilo que, de um modo ou de outro, é; de tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, possui uma forma qualquer de realidade. Ao considerarmos um elemento da realidade como ente, nós o consideramos apenas na medida em que podemos aplicar-lhe este termo simples e misterioso, eminentemente filosófico: ser. Trata-se de um termo absolutamente indeterminado e neutro; e que vale por sua generalidade mesma. Portanto, segundo Heidegger, a “metafísica” é um modo de determinar o ente, de interpretá-lo, de caracterizá-lo e de compreendê-lo. Não se trata, necessariamente, de uma espécie de visão intelectual, de uma concepção explicitamente formulada ou de um discurso sistemático sobre o ente. Sem dúvida, a compreensão do ente pode se exprimir num discurso. Mas ela é, antes de tudo, implícita, vivida. A interpretação do ente é, primordialmente, uma atitude prática e efetiva em relação a ele, um modo de nos situarmos diante dele, de nos relacionarmos com ele. Portanto, no sentido heideggeriano, a metafísica é, primordialmente, uma determinação fundamental do ente que se constitui no implícito e que só é tematizada no discurso de modo secundário. (Ladrière, sem data, p. 18)

2 representação e idéia: Stellen é "localizar (algo), pôr de pé". A preposição vor significa "diante, em frente a etc." Portanto, vorstellen é "trazer, mover adiante; pôr algo em frente a algo"; assim "representar, querer dizer, significar" e "introduzir, apresentar uma pessoa" etc. O reflexivo sich vorstellen significa "apresentar-se, introduzir-se" - com um acusativo sich, e "representar para si mesmo, imaginar, conceber" - com um dativo sich. Vorstellung é uma "realização, apresentação, introdução" "idéia, concepção, imaginação etc." Vorstellung também compartilha da ambigüidade de várias palavras com -ung: ela pode significar o ato de "representar (vorstellen)" ou “o que é representado (Vorgestelltes)". (Inwood, 2002, pág. 161)

3 Em que medida isso surge da metafísica moderna? À medida que se pensa a entidade dos entes enquanto vigência para a representação seguradora. Entidade é agora objetividade. A questão da objetividade, da possibilidade de oposição (a saber, do re-presentar que assegura e calcula) é a questão da possibilidade de conhecer. (Heidegger, 1954/2002, pág. 64)

4 É fato que a informática manipula símbolos, ou, melhor, dados numéricos ou categóricos, referentes a atributos de entes, atos ou fatos, doravante denominados dados simbólicos. É fato que os dados simbólicos representam, ou se presentam em lugar das coisas objetivadas, e são assim passíveis de serem operados pela informática, como um conjunto de atributos destas coisas. É fato que a significação não está no dado simbólico e nem na coisa simbolizada, mas na correspondência dada na representação efetuada. É fato que a formatação destes dados simbólicos em sinais binários permite a aplicação de uma lógica e de um cálculo sobre os mesmos. É fato que na combinatória final, oferecida pela informática, de uma lógica representando a razão humana operando sobre dados simbólicos representando, por sua vez, a memória humana de uma coisa, potencializa-se o poder de cálculo sobre a “realidade”.

5 Segundo George Lakoff (1985 e 1987), um dos principais teóricos citados pelos estudiosos, o sistema conceitual, que permite pensar e agir, é de natureza fundamentalmente metafórica, ou seja, a maior parte dos conceitos, que fundamentam o pensamento e a ação, são em grande parte compreendidos em termos de outros conceitos, assim formando uma cadeia que se sustenta, em ultima instância, na corporalidade.



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