A essência da informática enquanto dis-positivo de representação
A informática, engenho de representação
Martin Heidegger, em um de seus ensaios, “A época das concepções do mundo” (1949/1962, pág. 99-146), faz uma longa meditação sobre a essência da Modernidade, ou dos Tempos Modernos, a partir do questionamento a respeito da “concepção moderna do mundo”. A metafísica funda uma era ao meditar sobre a essência de um ente, estabelecendo uma interpretação determinada do ser e do ente, e, ao mesmo tempo, ao decidir por uma acepção da verdade, fixando o modo pelo qual ela advém.
Meditando sobre fenômenos característicos de uma era, pode-se entrever aspectos da metafísica que a orienta. No caso da Modernidade, entre os fenômenos onde os “sinais do Tempo” são vestígios seguros da metafísica que a sustenta encontram-se: a ciência, a técnica, a arte, a cultura.
Sobre as condições de possibilidade da ciência e técnica modernas, Heidegger tem uma tese fundamental: essas condições são de natureza metafísica. “A técnica mecanizada é até aqui o prolongamento mais visível da essência da técnica moderna, a qual é idêntica a essência da metafísica moderna” (Heidegger, 1949/1962, pág 69). Portanto, parece existir entre engenho de representação, enquanto natureza da informática, e a metafísica moderna, uma perfeita sintonia.
Metafísica aqui é tomada por Heidegger num sentido bastante particular e determinado, que só pode ser esclarecido pela totalidade de sua filosofia. Segundo as indicações de Jean Ladrière (sem data), a metafísica é, para Heidegger, uma maneira de determinar o ente.
Para Ladrière, o que Heidegger, chama de ente[1], em conformidade com toda a tradição filosófica ocidental, é tudo aquilo que de uma maneira ou de outra pode servir de sujeito ao verbo ser na terceira pessoa do singular. Por conseguinte, tudo aquilo que, a qualquer titulo, pode ingressar no campo da experiência, quer se trate da percepção, da imaginação, do sentimento, do pensamento especulativo, da experiência poética ou da experiência mística.
Heidegger entende que cada época da história ocidental caracteriza-se por uma metafísica. O que interessa especificamente referenciar aqui é a metafísica que domina a chamada “Modernidade”, isto é, a época da Ciência e da Técnica Modernas. Ou seja, a metafísica que norteou o que se denomina a Modernidade em sua determinação do ser, do ente e da verdade. “Tentando expressar aquilo que universalmente pode ser dito de todo ente como tal, a metafísica se inaugura como uma lógica do ente, uma teoria de seus predicados, de sua essência, de sua entidade, enfim uma onto-logia” (Taminiaux, 1983, pág. 264).
A metafísica dos Tempos Modernos, imanente à concepção moderna de mundo, distingue-se daquela que sustentava a concepção medieval de mundo e a concepção antiga de mundo, na medida em que, nestas últimas, o homem não representa o mundo, ou melhor, não faz o mundo se apresentar diante de si por meio de uma representação, princípio dominante na metafísica da Modernidade.
Entendendo representação[2] como uma espécie de imagem do mundo, reproduzida na imaginação do homem a partir da percepção, Heidegger conclui que só a partir do final da Renascença se constitui efetivamente este tipo de representação do mundo a partir da percepção subjetiva, fazendo do sujeito um absoluto e do mundo um espetáculo separado.
Vale dizer que para Heidegger, uma concepção do mundo deve ser entendida como uma “imagem[3] do mundo” (Weltbild), onde o termo mundo apresenta-se como uma denominação do ente em sua totalidade. O mundo não se reduziria, por conseguinte, ao Cosmos ou a Natureza, pois a História dele faz parte. Mesmo assim, Natureza e História se penetrando reciprocamente, não esgotam o Mundo, pois esta designação “entende também e, sobretudo, o Mundo em seu princípio”.
Como indica Heidegger, o que faz da concepção do mundo dos Tempos Modernos, algo totalmente distinto das concepções do mundo medieval e antiga, é “que o ente se torne ente na e pela representação”. É preciso cautela neste entendimento. Não foi o Mundo, enquanto imagem concebida que se tornou moderno, deixando de ser medieval. Com efeito, o que caracteriza e distingue os Tempos Modernos é justamente o Mundo ter se tornado uma imagem concebida.
Segundo Heidegger teria havido, em relação ao ente, uma atitude inteiramente distinta a partir dessa época. Neste sentido, uma metafísica distinta daquela da Idade Média e daquela da Antigüidade grega. Ele a chama de “metafísica da representação”. Onde o termo representação se baseia numa metáfora, na verdade, numa dupla metáfora: falamos de representação para caracterizar o estatuto de um representante, de algo que age em nome de outro; mas, também falamos de representação para designar a realização efetiva de um espetáculo, onde o espectador é um puro olhar abstrato, e o espetáculo está presente diante do espectador, como objeto.
A primeira metáfora sugere a idéia de algo que faz às vezes de outrem ou de outra coisa: a representação é uma espécie de transferência de atribuição em virtude da qual uma pessoa pode agir em nome e lugar de outra, servir de lugar-tenente para a pessoa que ela representa. A segunda metáfora, por sua vez, sugere a idéia de presentificação: a representação expõe diante de um espectador, sob uma forma concreta, uma situação significante, figuras evocadoras, encadeamentos de ações exemplares; deste modo, torna presentes o destino, a vida, o curso do mundo, no que eles têm de visível, mas também em suas significações invisíveis.
Os dois sentidos metafóricos estão ligados: quando o destino se torna presente, por exemplo, na tragédia, não é em pessoa, mas através de gestos e palavras que nada mais fazem que dar uma aparência concreta a situações imaginárias nas quais o espectador pode ver a ação do destino; e, simetricamente, a representação que faz as vezes de outro tem sua eficácia pela presença real do representante, que deve se mostrar em pessoa para preencher sua missão. Existe, portanto, na representação a superposição de dois tipos de presentação: por um lado, aquela efetiva e direta de uma pessoa, um ato, um fato; por outro, aquela indireta, mediatizada pela primeira, de uma realidade que não pertence ao campo da apreensão direta. A primeira desaparece de alguma forma sob a segunda, ela reduz sua eficácia ao se fazer instrumento da segunda, permitindo a realidade representada entrar em uma esfera de apreensão, se tornando conhecida. Razão pela qual a representação tem uma importância epistemológica imensa.
Do ponto de vista filosófico, a metáfora da representação é utilizada para significar que o ente é interpretado como um espetáculo dado a um espectador; e aquilo que é assim dado em espetáculo, desempenha o papel de um substituto da realidade. Mas o espectador, na ocorrência, é de certa forma desvanecente: não é um ente ao lado dos outros, mas um puro olhar. Esse puro olhar, este puro espectador, é o que a filosofia moderna chamou de "sujeito". Se acompanharmos a evolução da filosofia moderna em suas diferentes peripécias, perceberemos que a noção de sujeito cada vez mais se empobrece. Em Descartes, o sujeito ainda é uma substância, uma "coisa pensante". Em seguida, porém, o conceito de sujeito se purifica. O sujeito se torna, por assim dizer, uma pura função do olhar; converte-se nesta pura instância pela qual o mundo é constituído em espetáculo. A realidade se esgota no fato de ser para um sujeito; o ente é constituído em objeto e interpretado como tal. (Ladrière, sem data, pág.19)
A problemática da representação em si e no tocante a representação de fenômenos, através de discursos descritivos, dados quantitativos, modelos matemáticos e estatísticos, cartas e mapas, imagens de satélites, reúne por si só temas de reflexão que acumularam e ainda acumulam uma imensa bibliografia. Tanto mais pela importância, e, em grande parte, pelo natural modismo da simulação e do virtual, em uma pretensa Era da Informação, que se revela em plena sintonia com a metafísica[4] dos Tempos Modernos, ou, melhor dizendo, com a Weltanschauung moderna.
Na dita qualificação informacional de nossa era, ganha um significado todo especial a problemática da representação. Primeiro, porque demanda uma maior abertura de todos os interessados na informatização da sociedade, para a necessária reflexão das questões pertinentes à representação digital de qualquer ente. É da maior importância a crítica de instrumentos como a tecnologia da informação, presumivelmente capaz de modelar e analisar os fenômenos, sob a forma digital.
Segundo, porque na própria aplicação da informática, ou seja, no dar-se e propor-se da informática sobre um engenho de representação, constata-se um estranho jogo de diferentes representações. Um jogo em grande parte análogo àquele que Foucault (1966) reconhece em sua analise do quadro Las Meninas, que efetivamente “representa o mundo das representações disposto de maneira ordenada”.
Para Foucault, neste quadro reúnem-se os principais elementos da representação: o pintor produzindo a representação, o objeto representado e a visão da representação que tem um espectador qualquer. No entanto, por um enigmático paradoxo, o quadro também evidencia a impossibilidade de se representar o ato de representação.
Ou seja, o que não é representado é justamente o sujeito unificador e unificante que posiciona e integra esses elementos da representação, os tornando objetos para si mesmo. Para Foucault, essa experiência é como um prenúncio da episteme moderna, que irá inventar e fundamentar o homem como sujeito, e, ao mesmo tempo, objeto de estudo (Dreyfus & Rabinow, 1983).
Seguindo essa rica analogia, apresentada por Foucault, verifica-se que uma aplicação qualquer da informática parece indicar também um deslocamento na fundamentação do sujeito unificador e unificante. No dar-se e propor-se da informática, é concedido ao engenho o lugar privilegiado de sujeito, na constituição da representação final, pois sob seu comando são conjugados os elementos deste dar-se e propor-se, de modo a se ter como resultado a representação que se vê na tela do engenho.
Mas isto é, no mínimo, uma tese provocante, que merece uma argumentação maior, pois poderia, quem sabe, romper em definitivo com a quimera da “inteligência artificial”, e de seu sustentáculo o engenho de representação, que se re-velaria como sintetizador de ilusões informacionais-comunicacionais. Além de por em questão a pretensa neutralidade dos instrumentos disponibilizados pela Técnica Moderna.
Em termos bem concretos, na aplicação do engenho em um processo de informatização, desponta o modelo informacional digital como paradigma na construção da representação de um fenômeno. Como um elemento fundamental deste novo Discurso do Método, este modelo informacional, exógeno à qualquer disciplina que dele faça uso, determina uma forma digital para a representação de um fenômeno.
Esse método informacional-comunicacional, que define a forma digital de representação de um fenômeno, ou seja, o que o engenho irá doravante pro-por e dis-por, é uma metáfora do fenômeno visado, segundo alguns autores. Ao se preencher o modelo informacional do engenho, com dados simbólicos referentes a propriedades de qualquer fenômeno, sobre o qual dirigiu-se um olhar objetivante, já se deu partida a uma seqüência de traduções que transformam sucessivamente um modelo conceitual em outro, uma metáfora em outra. Razão pela qual, estudiosos do processo cognitivo dão a este método a denominação de “transformação metafórica” [5].
Ou seja, no simples ato de alimentar com dados um engenho está sendo reproduzida a transformação fundamental de uma sucessão de traduções, que já havia começado no momento da idealização, dentro de uma perspectiva científica, de um modelo do fenômeno visado, passou-se pelos modelos textuais, tabulares e analógicos de configuração de dados simbólicos disponíveis para este modelo ideal, chegando enfim ao modelo informacional digital. Com efeito, neste último fundamenta-se um marco, formalizando bases de dados digitais sobre as quais uma nova sucessão de transformações metafóricas vai poder se realizar, na medida em que se exercitem as funções de analise e síntese do engenho.
Até alcançar este marco fundamental, é importante reconhecer esta série de transformações, que apreendem, segundo um “olhar científico”, o fenômeno sendo investigado, enquadrando-o como uma metáfora de nossa percepção e de nossa idealização do mundo, e conduzindo-o através de sucessivas metáforas, até alcançar o conceito também metafórico, de “modelo do domínio de pesquisa”. Desta estrutura conceitual abstrata, em sua escala específica de investigação, procede-se à transformação em outra metáfora, pelo levantamento dos dados simbólicos disponíveis para o fenômeno visado dentro deste domínio; dados geralmente reconhecidos em seus formatos já reduzidos a modelos textuais (textos digitais), modelos tabulares (tabelas de dados) e modelos analógicos (imagens).
Finalmente, a partir desse conjunto de modelos textuais, tabulares e analógicos da realidade, pratica-se mais uma transformação em outra metáfora, o modelo informacional digital do engenho, que se configura, por sua vez, nas bases de dados digitais armazenadas no engenho. Chega-se, deste modo, ao ponto onde se reúnem quase todas as condições de possibilidade para o tratamento informacional-comunicacional que habilitará o engenho, a desempenhar sua funcionalidade.
À semelhança da “produção do pintor”, que é um dos elementos da problemática da representação, conforme indicado por Foucault em sua analise do quadro Las Meninas, toda esta sucessão de transformações segue uma metodologia teleológica. Pari passu, sempre sob o comando do engenho, atuando à semelhança do “sujeito unificador” de toda esta sucessão de transformações metafóricas, vai se chegar a metáfora final, o modelo informacional digital, a partir do qual, através do poder de analise e de representação do engenho, pode ser produzida uma variedade de presentações virtuais, na tela do computador ou em papel.
Funções de programação disponíveis no engenho completam as condições de possibilidade, que assim facultam a última transformação metafórica do modelo informacional digital, em modelo virtual do fenômeno. Modelo virtual capaz de ser apresentado em diferentes imagens digitais, no espaço delimitado do monitor (vídeo) de um micro ou da folha de papel de uma impressora. Imagens estas que podem ser vistas por um espectador, outro elemento da problemática da representação, segundo a interpretação dada por Foucault do quadro Las Meninas.
Sobre esse modelo virtual é possível se aplicar todas as funções de manipulação, de análise e de simulação, de construção e de apresentação de imagens de todo o gênero, sejam em forma de tabelas, gráficos, figuras, etc. As funções disponíveis no engenho de representação regem a interação usuário-computador, assumindo o papel de sujeito unificador e deixando o usuário como mero espectador, aparentemente ativo pelo simples fato de “comandar” o engenho.
O cálculo desempenhado pelo engenho, como re-presentação, ficciona imagens de atos e fatos humanos, tornando-os além de fictícios, manipuláveis. Estas imagens são “ficções calculadas” e como tal são antecipações construídas sem referência integral a qualquer aspecto pré-dado, pois seria impossível açambarcar todas as referências necessárias à conjuntura dos atos e fatos. O cálculo, portanto, revoluciona o estatuto da imagem de um ato ou fato, que deixa de ser o que é para se tornar algoritmo.
É interessante notar que, para alguns teóricos do engenho deveria se instalar pela interface oferecida pelo engenho, uma interação de co-responsabilidade complexa com o usuário do engenho. Ou seja, seria necessário nesta interação, um nível de competência equivalente entre as partes envolvidas, usuário e engenho, para se acompanhar e controlar o conjunto de transformações metafóricas entre: modelos mentais, na cabeça da pessoa; modelos informacionais digitais, enquanto programas e base digital de dados; e, modelos virtuais, apresentados na interface homem-máquina.
Dentro desse enredo multifacetado, as novas formas de abordagem conceitual e de representação do ente, aportadas pelo engenho, merecem uma critica radical. Primeiro, porque descortinam uma perspectiva sui generis para a compreensão do engenho, e a partir do dar-se e propor-se da informática. Segundo, porque oferecem à reflexão uma série de problemas filosóficos, cognitivos e técnicos que se dissimulam, sob dar-se e propor-se.
Segundo Hubert Dreyfus (sem data) está em jogo o velho sonho cartesiano de que toda compreensão do ente consiste em formar e usar representações simbólicas, que se acreditava serem constituídas de descrições complexas construídas sobre idéias primitivas ou elementos. Kant adicionou a idéia importante de que conceitos implicavam em regras. Frege demonstrou que as regras poderiam ser formalizadas de modo a serem manipuladas sem intuição nem interpretação. A pesquisa em informática só fez estender e implementar a proposta, concebendo no caminho a possibilidade de que a razão e a memória humanas poderiam ser codificadas como algoritmos e dados simbólicos.
No caso da informática, a abordagem conceitual do ente se assenta sobre os princípios do cognitivismo e a representação do ente, enfim sobre a noção de modelo. A referência à matematização não concerne tanto o uso de métodos matemáticos, mas geralmente a construção de modelos aptos à explicar o ente em uma pluralidade de situações. Neste sentido, a representação informacional-comunicacional do ente visa aplicar uma espécie de filtro através de um modelo que “essencializa” o ente, possibilitando mimetiza-lo no que interessa manipula-lo.
Isso por sua vez implica uma atitude do cognitivismo, de não querer responder questões concernentes ao “que” ou ao “porque” do conhecimento, sendo seu único interesse o “como”. Nas palavras de Kremer-Marietti (1994, pág. 8): “Quanto à filosofia cognitiva, que não concerne o ‘que’ do conhecimento, mas seu ‘como’, as questões ’como conhecemos?’, ‘como pensamos?’ visam tanto o estatuto dos dados sensíveis como aquele das palavras da linguagem ou dos signos em geral. Estas questões convêm tanto à sensibilidade quanto à inteligibilidade e à atividade” (apud, Lanciani, sem data).
Se o “como” se torna o único momento de conhecimento digno de atenção, parece decorrer que só há um interesse pela realização concreta deste “como”, que assim justificaria as conquistas teóricas do cognitivismo. Por conseguinte, o momento da “informática”, onde se criam e se implementam concretamente dis-positivos de representação, é a apoteose da técnica, na concretude dos princípios e modelos cognitivistas. Mais que isto, a informática é a expressão clara e contundente da essência da técnica moderna, a Ge-stell.
Mais ainda, e isso é uma das teses principais do cognitivismo, se torna suficientemente claro que o papel “performativo” das tecnologias da informação implica na construção de dis-positivos que são a manifestação concreta da compreensão que se pode, ou não, ter finalmente alcançado e representado de um ato ou fato humanos, ou de qualquer outro ente, dentro de um determinado domínio de estudo: compreender – na perspectiva cognitivista – equivale à reproduzir, à replicar, à mimetizar.
Assim sendo a tese capital do cognitivismo, que provém diretamente do pensamento cibernético, é que a vida da mente, do cérebro, e do pensamento, nada mais é que um cálculo lógico, ou, para qualquer fim que seja, pode-se representar como tal. Um ato ou um fato humanos e o comportamento humano que os acompanham, podem ser representados por uma matematização massiva.
Esta tese, na fundamentação do cognitivismo[6], nunca é posta em discussão Admite-se apenas especulações sobre como interpretar e aplicar esta tese ao nível operacional, ou seja, ao nível dos algoritmos e estruturas tecnológicas que a concretizam. A tese é sempre confirmada por sua funcionalidade, e por anos de ciência moderna que sempre admitiu a possibilidade de superpor redes matemáticas sobre eventos do mundo físico, representando-os de modo inquestionável[7].
A representação do “com-posto informacional-comunicacional” de razão e de memória humanas relativos a um ato ou um fato, sob a forma de algoritmos operando sobre dados simbólicos, é um modelo informacional-comunicacional. Na perspectiva da física matemática o modelo guarda certa analogia e pontos de referência com a realidade física estudada, enquanto no cognitivismo efetua-se um salto, por operações sucessivas de abstração. Embora válida a abstração em qualquer modelagem, neste caso o desígnio pragmático da abordagem cognitivista, permite falar de uma radicalização da modelagem, na medida em que o modelo é ao mesmo tempo absolutamente abstrato e interessado apenas na capacidade operativa e produtiva do que representa.
A abordagem cognitivista da modelagem pode ser entendida como seguindo estrito senso a metáfora da “caixa preta”: dados entram na caixa - suas entradas – e após certa elaboração sai um conjunto de dados - suas saídas. Não interessa o que se passa dentro da caixa, importa apenas que as entradas (algoritmos e dados simbólicos) correspondam às representações de atos ou fatos que a caixa vai mimetizar, respondendo com saídas que também representam respostas similares ao comportamento humano diante dos mesmos atos ou fatos representados.
O modelo informacional-comunicacional, enquanto abstração do engenho de representação, comporta quatro níveis como com-postos, como “bonecas russas”: o submodelo biológico, baseado nos mecanismos neurológicos que sustentam a cognição; o submodelo psicológico, baseado na modelagem dos modos de obtenção, armazenamento e recuperação de informações; o submodelo computacional, representante da reprodução de maneira algorítmica das faculdades cognitivas, segundo as premissas de que o cérebro é uma máquina de cálculo e pensar é calcular; o submodelo matemático, onde se restringe a atuação dos submodelos anteriores garantindo a conversão da competência cognitiva e, a seqüência lógica de procedimentos cognitivos. Razão e memória humanas são assim transformadas segundo um modelo capaz de representá-las enquanto fatos e atos virtuais.
Toda a operação de modelagem, de construção de uma representação da razão e da memória é uma operação de simbolização destinada a criar e nomear objetos a serem tratados por esta representação. Quer dizer, que cada modelo é dotado de símbolos mais ou menos relacionados aos entes objetivados de atos e de fatos existentes fora do modelo, através de dados simbólicos. O modelo representa assim um universo com suas leis, onde o símbolo deve se comportar enquanto operado pelas funções definidas no interior do modelo, da mesma maneira que os entes representados pelos dados simbólicos.
Qualquer tecnologia da informação não é uma tabula rasa. Sobre sua base material, organizando circuitos lógicos e aritméticos e memória, segundo um sistema binário, já opera um programa, composto por algoritmos e dados simbólicos, que estabelece seu modo performativo e sua interface na interação com seu usuário. Sobre esta camada de programação, representando o engenho, outra camada de programação oferece as diferentes funções de representação do engenho, que o tornam capaz de aplicações diversificadas, no tratamento de textos, no processamento de imagens, na resolução de problemas matemáticos e estatísticos.
O computador é programado e tudo que nele é codificado, obedece ao sistema binário, 0 e 1. Do mesmo modo tudo que entra e sai do computador, passa por esta conformação ao sistema binário. As camadas de programação que lhe configuram como engenho de representação são também codificações em sistema binários, em última instância. O mistério cerca a proximidade e o distanciamento entre o baixo nível do sistema binário, implementado nos circuitos do computador e o alto nível de um programa de processamento de texto, de uso comum hoje em dia. Enquanto este mi-lieu permanecer velado e não pensado, a essência da informática, formulada como dis-positivo de representação, só será uma etiqueta, mas não um significado, uma re-velação. A funcionalidade expressa em seu poder de representação encobre e desencobre a essência da informática, assim como o agir humano vela e re-vela sua essência humana.
Na proximidade-distanciamento entre os níveis operacionais do engenho, reside também a separação da noção de informação, como sinal circulando e armazenado no baixo nível operacional da máquina, e como conteúdo com significado reconhecido pela pessoa ocupada com um instrumento do engenho, por exemplo, uma base de dados de população. No primeiro, a informação é considerada de um ponto de vista sintático, exatamente como Shannon a estabeleceu em sua Teoria. Na segunda, o conteúdo sintático ganha seu significado na “dis-posição” pessoa-com-engenho-de-representação, tratando um problema qualquer segundo o modelo informacional-comunicacional do mesmo.
A sintaxe pode ser representada em temos matemáticos binários, ou em qualquer outro sistema matemático de codificação. Deste modo, pode ser reconduzida a um tratamento lógico-matemático de um grupo de símbolos. A sintaxe é estritamente cálculo. Por outro lado, esta constatação parece prevalecer e reforçar outra mais sutil e questionável de que o significado pode ser retirado deste mesmo tratamento, desde que se faça um investimento maior no programa e na memória do engenho, e especialmente na mimese que estes representam da razão e da memória humanas diante de diferentes atos e fatos da vida.
Há um processo em curso que faz com que a representação da linguagem não seja determinada a partir dela mesma, do falar um com o outro, mas sim pela maneira como o computador fala e calcula isto. A equiparação da linguagem com o computador. Este destino da Física, que chegou agora à Física Nuclear, inquieta os pensadores entre os físicos, visto que eles vêem que o homem, colocado neste mundo construído pela Física Nuclear, não tem mais acesso ao mundo. Agora só continuam acessíveis a calculabilidade e o efeito. Nesta situação tentamos nos ajudar, por exemplo, com a palestra que Heisenberg fez sobre Goethe e as ciências naturais modernas. Ali ele procurou algo totalmente insustentável, ou seja, mostrar que aquilo para o que se dirige a Física, isto é, a fórmula universal, a recondução a um princípio simples, corresponderia ao fenômeno originário de Goethe ou às idéias platônicas. Heisenberg não reparou que uma fórmula matemática, por mais simples que seja, é algo fundamentalmente diferente do fenômeno originário de Goethe. Mas o problema de Heisenberg é ainda maior, ele não consegue colocar a sua Física em relação vital com o homem. Outros físicos ligam a ciência à fé.
Falar é dizer = mostrar = deixar ver = comunicar e ouvir de modo correspondente, subordinar-se e adaptar-se a uma exigência, corresponder. (Heidegger, 1987/2001, pág. 228, grifo meu)
“Como o computador fala e calcula isto” é a redução à sintaxe e ao poder operatório do algoritmo em sua presunção de enunciar sentido. Fica-se apenas com o lógico, os símbolos matemáticos e as regras de relação válidas para os entes matemáticos, enquanto representações do que de razão e de memória se pode codificar em algoritmos operando sobre dados simbólicos.
Na Metafísica moderna, a esfera da interioridade invisível se determina como a região da presença dos objetos calculados. Esta esfera, Descartes a caracterizou como consciência do ego cogito.
Quase ao mesmo tempo em que Descartes, Pascal descobre, antítese da lógica da razão calculante, a lógica do coração. O interior e o invisível da dimensão do coração é não somente mais interior que a interioridade da representação calculante – e, por isto, mais invisível – mas leva ao mesmo tempo mais longe que a região dos simples objetos produtivos. (...) No interior desta consciência incomum reside um espaço intimo no interior do qual, para nós, toda coisa superou o numérico do cálculo, e pode assim, livre de limitações, se expandir no todo sem entraves do aberto. Tal supérfluo sobre-numérico nasce, quanto à sua presença, na interioridade e invisibilidade do coração. (Heidegger, 1949/1962, pág. 367-368)
Com a informática, impulsionada pela informatização, a questão do sentido do ser proposta por Heidegger desde “Ser e Tempo” torna-se ainda mais vital à superação da metafísica. O sentido do ser daquilo que é, o sentido do ser do ente, e agora o sentido do ser do ente informacional é a questão premente desta “Era da Informação”.
Para Marc Richir (1990, pág. 9), “o Dasein, sempre ex-stasiado ao sentido, não dispõe de sentido a seu bel prazer, não é o mestre do sentido, este está dissimulado em suas profundezas insondáveis”. Posto deste modo, a determinação do sentido do ser daquilo que é, surge, enquanto determinação, de uma “instituição simbólica”. Entendida em sua generalidade como o conjunto coeso de sistemas simbólicos (línguas, práticas, técnicas e representações) que codificam o ser, o agir, as crenças e o pensar dos homens, sem que estes decidam; como o “já dado” de antemão (Richir, 1996, pág. 14).
Sendo assim é urgente pensar a essência da informática e o processo de informatização, face às mudanças em curso na instituição simbólica contemporânea, quando a técnica moderna alcança seu ápice no engenho de representação. Quando a essência da técnica moderna, a Ge-stell, vislumbrada por Heidegger há meio século atrás, se manifesta em todo sua resplandecência e plenitude no dar-se e propor-se da informática em cada situação individual, e na informatização galopante da humanidade.
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[1] Trata-se de tudo aquilo que, de um modo ou de outro, é; de tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, possui uma forma qualquer de realidade. Ao considerarmos um elemento da realidade como ente, nós o consideramos apenas na medida em que podemos aplicar-lhe este termo simples e misterioso, eminentemente filosófico: ser. Trata-se de um termo absolutamente indeterminado e neutro; e que vale por sua generalidade mesma. Portanto, segundo Heidegger, a “metafísica” é um modo de determinar o ente, de interpretá-lo, de caracterizá-lo e de compreendê-lo. Não se trata, necessariamente, de uma espécie de visão intelectual, de uma concepção explicitamente formulada ou de um discurso sistemático sobre o ente. Sem dúvida, a compreensão do ente pode se exprimir num discurso. Mas ela é, antes de tudo, implícita, vivida. A interpretação do ente é, primordialmente, uma atitude prática e efetiva em relação a ele, um modo de nos situarmos diante dele, de nos relacionarmos com ele. Portanto, no sentido heideggeriano, a metafísica é, primordialmente, uma determinação fundamental do ente que se constitui no implícito e que só é tematizada no discurso de modo secundário. (Ladrière, sem data, p. 18)
[2] representação e idéia: Stellen é "localizar (algo), pôr de pé". A preposição vor significa "diante, em frente a etc." Portanto, vorstellen é "trazer, mover adiante; pôr algo em frente a algo"; assim "representar, querer dizer, significar" e "introduzir, apresentar uma pessoa" etc. O reflexivo sich vorstellen significa "apresentar-se, introduzir-se" - com um acusativo sich, e "representar para si mesmo, imaginar, conceber" - com um dativo sich. Vorstellung é uma "realização, apresentação, introdução" "idéia, concepção, imaginação etc." Vorstellung também compartilha da ambigüidade de várias palavras com -ung: ela pode significar o ato de "representar (vorstellen)" ou “o que é representado (Vorgestelltes)". (Inwood, 2002, pág. 161)
[3] Quanto a palavra imagem, devemos pensar na reprodução de alguma coisa. Um Weltbild seria portanto como um quadro do ente em sua totalidade. No entanto, Weltbild diz mais. Pois assim entendemos o Mundo (Welt) ele mesmo, o ente em sua totalidade, assim como nos impõem suas diversas ordens de medidas. Imagem (Bild) designa, por conseguinte, não um simples decalque, mas o que se faz entender na forma alemã: Wir sind über etwas im Bilde (literalmente: “somos quanto a qualquer coisa, na imagem”, ou seja, “somos ou estamos no fato desta coisa”). (…) Fazer a idéia de alguma coisa de maneira a ser fixada, é portanto pôr o ente ele mesmo diante de si para ver de que se trata, e tendo assim o fixado, o manter constantemente nesta representação. (…) Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que ele quer por conseguinte levar e ter diante de si, aspirando assim a pará-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. Weltbild, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa portanto uma idéia do mundo, mas o mundo ele-mesmo apreendido como aquilo que se pode “ter-idéia”. O ente em sua totalidade é portanto tomado agora de tal maneira que ele é só e verdadeiramente ente na medida em que é parado e fixado pelo homem na representação e na produção. (…) O ser do ente é agora buscado e descoberto no ser-representado do ente. (Heidegger, 1949/1962, pág. 117)
[4] Em que medida isso surge da metafísica moderna? À medida que se pensa a entidade dos entes enquanto vigência para a representação seguradora. Entidade é agora objetividade. A questão da objetividade, da possibilidade de oposição (a saber, do re-presentar que assegura e calcula) é a questão da possibilidade de conhecer. (Heidegger, 1954/2002, pág. 64)
[5] Segundo George Lakoff (1985 e 1987), um dos principais teóricos citados pelos estudiosos, o sistema conceitual, que permite pensar e agir, é de natureza fundamentalmente metafórica, ou seja, a maior parte dos conceitos, que fundamentam o pensamento e a ação, são em grande parte compreendidos em termos de outros conceitos, assim formando uma cadeia que se sustenta, em ultima instância, na corporalidade.
[6] A intuição central do cognitivismo é que a inteligência – compreendida a humana – se assemelha de tal modo à computação em suas características essenciais que a cognição pode de fato se definir por computações sobre representações simbólicas. (Varela, Thompson & Rosch, 1993, pág. 73)
[7] Eis, agora a questão fundamental de todo Atlas: de que se deve levantar uma carta? Resposta evidente: dos seres, dos corpos, das coisas... que não se podem pensar de outro modo. Por que não desenhamos jamais, com efeito, as órbitas dos planetas, por exemplo? Porque uma lei universal prediz suas posições; que fazer de um guia rodoviário, no caso de movimentos e situações previsíveis? Seria suficiente deduzir de sua lei. Nenhuma regra, ao contrário, prescreve o recorte dos rios, o relevo das paisagens, o plano da cidade natal, o perfil do nariz nem a impressão digital do polegar... Eis singularidade, identidades, afastadas infinitamente de toda lei; trata-se de existência, dizem os filósofos, e não de razão.
Então as simulações que se denominam retratos, reproduções ou representações não passaram de retardatários aos princípios, não descobertos ou ainda ausentes. (...) A lei rigorosa, enfim, é a melhor das memórias, sem armazenamento, portanto leve, enquanto se deve portar e conservar traçados para guardar uma lembrança, pesada de singularidades.
Ora os métodos algorítmicos, antigos pois datam dos babilônios, mas novos após os computadores, costurando portanto, eles também, dois modos e dois tempos, presidem as tecnologias da simulação, que abordam a existência com uma aproximação esquisita. (...) Como os algoritmos procedem, no sentido absoluto do termo, quer dizer descrevem processos, métodos por conjuntos de caminhos, sua razão pode se dizer cartográfica. Procedendo passo a passo, mas na velocidade da luz, a simulação apreende aquilo que denominamos a razão. (Serres, 1994, pág. 18)


